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27 de março de 2013

Por que celular na educação?

Sônia Bertocchi e Claudemir Edson Viana

Com a massificação do celular, seria de se esperar que o m-learning (mobile learning)  se tornasse um elemento importante na aprendizagem formal dos nossos alunos, uma vez que uma aprendizagem já acontece de maneira não formal, não sistematizada,  nem orientada pelos professores. A perspectiva seria que essa aprendizagem, por conta das características do celular, pudesse acontecer, cada vez mais, em ambientes interativos de forte colaboração em rede, e não necessariamente dentro da sala de aula. 

Algumas possíveis aplicações de celular no processo de ensino-aprendizagem é o que o pesquisador do Laboratório de Inteligência Coletiva da PUC, dr. Rogério da Costa, citou recentemente no encontro Interdidática: "O aluno pode trocar mensagens (SMS), consultar o dicionário, criar e consultar glossários, resolver questionários, ouvir as aulas em vídeo e áudio (podcasts) e fazer fotografias".
Ele acredita que essa forma de inteligência coletiva oferece resultados mais concretos e proveitosos do que os mecanismos de busca convencionais, por exemplo. No entanto, é bom entender que estes possíveis usos só terão sentido educativo se houver uma intencionalidade pedagógica, isto é, se estas ações forem realizadas pelos jovens em razão de um projeto pedagógico proposto pelos seus educadores e de forma articulada a ele.
Ele acredita que essa forma de inteligência coletiva oferece resultados mais concretos e proveitosos do que os mecanismos de busca convencionais, por exemplo. No entanto, é bom entender que estes possíveis usos só terão sentido educativo se houver uma intencionalidade pedagógica, isto é, se estas ações forem realizadas pelos jovens em razão de um projeto pedagógico proposto pelos seus educadores e de forma articulada a ele.
"Lo más interesante de cualquier transformación tecnológica no es lo que los ingenieros dicen que va a pasar, sino lo que la gente hace con ella. Somos nosotros los que estamos cambiando, no las tecnologías las que nos hacen cambiar."
Manuel Castells em entrevista à BBC Mundo.

O acelerado desenvolvimento tecnológico que se tem verificado recentemente nas potencialidades dos celulares  (WiFi, 3G e 3GS), aliado às suas potencialidades originais já  reconhecidas como recursos técnicos para a aprendizagem - portabilidade, interatividade, sensibilidade ao contexto, conectividade e individualidade -,  sinaliza condições mais que favoráveis para que educadores se dediquem urgentemente ao estudo e desenvolvimento de propostas pedagógicas que incluam aplicações desses equipamentos na escola.
Essas propostas poderiam incluir desde atividades simples de caráter comportamentalista até atividades de natureza construtivista, passando pela aprendizagem em situação e pelo ensino colaborativo apoiado em computador, baseado na psicologia sociocultural de Vygotsky.
Afinal, a tecnologia sempre está a serviço da humanidade, e num contexto educativo não poderia ser de outra forma, se não, novamente, estaríamos incorporando o uso dos recursos de tecnologias novas na educação, como o celular, apenas para parecer moderninho, ou seja, apenas pela tecnologia em si (como fim e não meio), até mesmo com metodologias de ensino absolutamente tradicionais e incoerentes com as características naturais decorrentes desses recursos tecnologócios, o que seria um anacronismo total. 
  
É, portanto, necessário aos educadores uma abertura inicial para estas questões e suas possibilidades, a fim de que possam vislumbrar paulatinamente o que em sua prática pedagógica seria possível aplicar com os recursos da telefonia móvel e o que em sua prática deveria mudar para conseguirem incorporar e explorar da melhor maneira estes recursos. Este processo do educador é necessário e leva certo tempo, inclusive de experimentações, já que na formação do educador, nem de longe, tratou-se de forma adequada e atualizada o uso de recursos das tecnologias de informação e comunicação em suas práticas pedagógicas. 

Então, é preciso considerar este tempo do educador, e também oportunizar formações continuadas que apresentem estas novas situações de ensino-aprendizagem, as novas formas de ser e fazer dos jovens para que os profissionais da educação comecem a atuar de maneira articulada com o contexto social em que seus alunos vivem. 
  
Esta modalidade de ensino, o m-learning, implica em modalidades de educação que utilizam os dispositivos móveis, como o celular, aplicados na educação. Cresce o número de exemplos deste uso pelo mundo. Recentemente, nos Estados Unidos, alunos de diferentes escolas da cidade de Austin, Chicago e Boston têm aulas de biologia, matemática, química, ciências e estatística com seus celulares. São atividades intituladas de "simulações participativas", em que estudantes recebem um conteúdo do professor via celular e passam a interagir com ele, enviando em seguida suas intervenções aos colegas. Saiba mais sobre este tipo de "simulação participativa" (In: veja.abril.com.br).

Pelo celular ... lá na escola: Mobilidade e convergências nos projetos pedagógicos

Sônia Bertocchi e Claudemir Edson Viana

Os "mais vividos", com certeza, devem se lembrar do samba "Pelo Telefone", autoria de Donga, de 1916. E do verso que diz que "o chefe da polícia, pelo telefone, mandou avisar...". Unanimemente, entendemos que avisou via fala, serviço de comunicação verbal próprio desta tecnologia. Parece muito óbvio para nós – mas lembremos o espanto geral que a invenção do telefone causou poucos anos antes: D. Pedro II, ao ver o invento pela primeira vez, durante a feira de Filadélfia nos Estados Unidos em 1876, disse :  "Meu Deus, isto fala!", e logo comprou 100 aparelhos telefônicos para trazer ao Brasil.

Mas, 133 anos depois, falar por meio do celular é apenas uma das ações que esta tecnologia nos permite fazer. Aliás, é a mais simples e corriqueira atividade: falar pelo celular é o que faz aproximadamente 86% da população brasileira possuidora de celular. Com um custo cada vez menor e tecnologias mais avançadas, encontramos celulares que permitem muito mais que simplesmente falar. Em agosto de 2009, segundo a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), atingiu-se o impressionante número de 164,5 milhões de celulares no país, o que representa um índice de densidade de 85,91 celulares para cada 100 habitantes.


Nova sociabilidade: a portabilidade
 

O histórico da evolução material da telefonia, aponta uma nova sociabilidade que emergiu sob o suporte do aspecto portátil do celular. A partir da história do telefone, podemos vislumbrar, sob a perspectiva da materialidade da comunicação, as afetações que um artefato técnico pode trazer à tona em uma determinada cultura, como a da presença significativa do celular na contemporaneidade.

Hoje, pelo celular se pode também escrever, fotografar, filmar, editar, jogar, navegar na Internet, enviar e-mail, torpedos, ouvir música ou rádio. São tantas as possibilidades impensáveis há alguns anos, que podemos imaginar o que diria D. Pedro II se pudesse conferir esta evolução. Este avanço tecnológico da telefonia é mais um exemplo claro do que pensadores da Escola de Toronto (Harold Innis, Eric Havelock, Marshall McLuhan) destacavam sobre o fato das tecnologias comunicacionais possuírem o poder de transformar as culturas e as subjetividades, e de estas, por sua vez, provocarem novos ciclos de mudanças tecnológicas, numa dialética sem fim.

Conforme a 4ª Pesquisa sobre o uso das Tecnologias da Informação no Brasil (TIC Domicílios 2008), realizada pela Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), cada vez mais no Brasil utiliza-se o celular para enviar ou receber imagens, acessar músicas ou vídeos. Esta pesquisa anual pela primeira vez incluiu a análise da área rural e mostrou que, mesmo com a maioria da população utilizando os planos pré-pagos (91%), de 2005 a 2008 subiu de 4% para 24% a utilização do celular com o envio ou recebimento de imagens, e de 9% para 23% com o uso de músicas e vídeos, tendo ocorrido um crescimento mais significativo nos dois últimos anos em razão das conexões 3G e da presença no mercado de celulares mais potentes. Isto demonstra como o uso mais multimídia do celular vem ocorrendo entre os brasileiros graças à sua evolução técnica.

Em outra pesquisa também se constata a forte presença dos celulares entre estudantes brasileiros: dados da publicação A Geração Interativa na Ibero–América: crianças e adolescentes diante das telas - um estudo feito em parceria entre a Universidade de Navarra, na Espanha, a Fundação Telefônica e o EducaRede - apontam para o sucesso do aparelho celular entre os jovens de 6 a 18 anos de idade. Em São Paulo, nada menos que 82% dos estudantes que participaram da pesquisa afirmaram possuir um telefone móvel.

Em alguns contextos sociais, usam-se os aparelhos móveis para outras finalidades que, de normalmente secundárias passam a principais, como câmera, tocador digital ou videogame portátil. Exemplos internacionais deste tipo de uso alternativo são o que demonstram os dados de uma pesquisa feita pelaLightspeed.

No Brasil, um exemplo dessa situação é o que ocorre na cidade potiguar de Barcelona. E são os jovens e as crianças que dão show quando o negócio é usar todos os recursos do celular ou quando mostram não terem medo de explorar o celular para aprender como utilizá-lo. E aí está a diferença. Muitos dos adultos, e em especial os educadores, não conhecem ou não usam estes recursos todos e muito menos visualizam como eles e a cultura deles decorrente podem ser associados às práticas escolares.


Atenção: desligar e guardar os celulares. Celular na escola? Pode?
Tem causado grande polêmica a criação de leis municipais e estaduais que propõem proibições para o uso do celular nas escolas. Nas redes de ensino onde isto já é praticado, justifica-se que só mesmo com a proibição legal garante-se a autoridade do professor que, desta forma, amparado pela lei, pode se fazer respeitar durante suas aulas, proibindo o uso do celular. "Celular na escola, não!", ou como dizem os não tão radicais, "celular durante a aula, não!".

Mas por que mesmo não pode? O vilão da vez

Para responder a esta pergunta, sataniza-se o equipamento, o celular, e destaca-se o quanto os alunos, crianças e jovens, envolvem-se por tudo o que esta tecnologia de informação e comunicação possibilita, deixando assim de se interessarem pelas aulas dos seus professores. Então, neste caso, a opção melhor é mesmo proibir, censurar, pois se trata de uma concorrência desleal, argumenta a maioria. E por isso, os professores aplaudem tal legislação. 

No entanto, com este tipo de censura, perde a educação e perde a sociedade. Sérgio Amadeu, pesquisador de Comunicação Mediada por Computador e da Teoria da Propriedade dos Bens Imateriais, diz que "não tem sentido você proibir que os estudantes tenham acesso a um meio de comunicação que cada vez mais vai adquirir importância na sociedade. Ao contrário, se a gente tem problemas do uso indevido nas escolas, esse é um bom lugar para ensinar como as pessoas devem se portar com o celular". Amadeu ainda ressalta: "Se existem algumas coisas ruins, como por exemplo, a pessoa usar o celular para fazer um joguinho em sala de aula ou para fazer ligações, isso requer uma postura da escola em relação aos alunos. Se é impossível ensinar um comportamento de uso de celular a um estudante, o que será possível?". A professora Andrea Guimarães Phebo complementa: "A lei só vê um lado da questão: o lado da falta de educação e desrespeito da utilização. Se os próprios educadores não tiverem um olhar diferenciado sobre como podem transformar a ferramenta celular de "vilão" em "mocinho", a lei continuará impedindo que este instrumento tecnológico de múltiplas funções possa se transformar em ferramenta didática". (In.  Educarede: As 1001 utilidades de um celular)

Essas legislações passam a seguinte mensagem: quando não se sabe o que fazer ou como lidar com algo é melhor proibi-lo pura e simplesmente! E erram feio mais uma vez: na escola já se proibiu o uso de jogos, de filmes, de gibis, dos periódicos, da televisão e mesmo do computador no processo de ensino-aprendizagem. Agora, o vilão da vez é o celular!


Definitivamente, proibir por proibir não é o melhor caminho, até porque os jovens são criativos o suficiente para burlar as proibições. Um exemplo dessa criatividade é o que estudantes ingleses inventaram:  "Eles criaram um toque de celular, semelhante a um apito, que a maioria dos adultos não consegue ouvir. Com isso, podem receber avisos de mensagens armazenadas no celular, ou até mesmo chamadas, sem que a professora se dê conta da infração cometida bem à sua frente. O segredo está na freqüência sonora em que o toque é executado: 17 quilohertz, o que resulta num som extremamente agudo. A ciência ensina que a perda gradativa da audição decorrente da idade, ou presbiacusia, começa com a menor percepção dos tons mais altos do espectro sonoro. O toque criado pelos garotos ingleses encontra-se justamente numa faixa do espectro que não é percebida pela maioria das pessoas com mais de 29 anos". (In:  A última travessura: Adolescentes usam toque de celular numa frequência que muitos adultos não escutam. Leoleli Camargo- Veja - Edição 1961 . 21 de junho de 2006.


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O celular integrado às atividades do projeto inha Terra


Sônia Bertocchi] e Claudemir Edson Viana
 
As razões indicadas em "Pelo Celular...lá na escola!" e "Por que celular na educação?" serviram de fundamento para a decisão de incluir o aparelho nas atividades propostas pela comunidade virtual de aprendizagem Minha Terra 2009 - aprender a inovar, do Portal Educarede. Como um dos desafios apresentados por esta comunidade aos seus participantes, foi lançado, em agosto de 2009, o "Pelo Celular - planejando a intervenção". O pedido era que as equipes de reportagens (alunos do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio) produzissem um registro de até um minuto em audiovisual, utilizando a câmera do celular. Nesse audiovisual a equipe anunciaria o projeto de intervenção na realidade social que havia sido objeto de sua primeira reportagem, então já publicada num espaço específico da comunidade virtual (a galeria temática).
 
Para tanto, a equipe necessitaria passar por alguns procedimentos preparatórios fundamentais, como a preparação de um roteiro básico, a organização do cenário, da iluminação e do ensaio dos envolvidos na atuação. Essa necessidade demonstra o quanto a atividade não se resume apenas ao uso do equipamento e de seus recursos: o planejamento e a criação prévia da equipe são etapas fundamentais para o melhor proveito das ideias e do equipamento.
  
Neste desafio, compunham a trajetória não só o uso do aparelho de celular, mas também procedimentos posteriores, como o ato de baixar a gravação num determinado computador, fazer ou não a edição do material gravado, proceder com a publicação do produto final no YouTube e, finalmente, "colar a publicação" no Canal Minha Terra no YouTube (cujo acesso direto se dá pelo link disponibilizado na home desta comunidade) no grupo temático específico identificado com o título deste desafio.
 
"Lo que realmente es importante de la comunicación móvil no es tanto la movilidad, sino la conectividad permanente, estés donde estés, se haga donde se haga.
Esto nos permite estar constantemente relacionados
con los amigos, la familia y el trabajo."
Manuel Castells em entrevista à BBC Mundo.
 
Além disso, o grupo ainda teria que comunicar a todos os demais participantes sobre a publicação e convidá-los para assistir à sua produção, fazendo uso dos demais canais e ferramentas de interação apresentados no Minha Terra, como o blog da comunidade e o uso do Twitter pessoal, ou mesmo institucional, criado pelos alunos (Twitter do grupo de repórteres ou Twitter da escola, por exemplo).
 
Assim, dava-se a efetiva utilização das características próprias do uso do celular, como a mobilidade, e também a convergência e integração de diferentes mídias, linguagens e suportes técnicos, ao se propor em seguida a utilização do YouTube, do blog e do Twitter. E, o mais importante, tudo isso acontecia em razão e a favor do desenvolvimento do projeto de intervenção social da equipe que, por sua vez, trazia uma proposta pedagógica de trabalho. 
 
Foram vários os exemplos de trabalhos cuja criatividade e capacidade de realização demonstraram domínio sobre o uso destes recursos diferenciados do celular de forma articulada aos demais recursos da Web 2.0 propostos pelo Minha Terra. Em alguns casos a riqueza no trabalho de equipes de reportagem com os elementos de construção da mensagem como roteiro, cenário, iluminação, som, edição, causou surpresa, demonstrando o quanto os jovens têm ou desenvolvem facilmente múltiplas habilidades no uso de diferentes plataformas e tecnologias.
 
Em novembro foi lançado o segundo desafio, desta vez intitulado "Pelo Celular - minuto intervenção", no qual as equipes participantes teriam que registrar algum momento da execução do seu projeto de intervenção para, posteriormente, proceder com sua publicação e sua publicização nos mesmos moldes do que fora proposto o primeiro desafio.
 
Com esta inserção do celular nas atividades do Minha Terra, a principal intenção foi provocar entre os jovens e, sobretudo, entre os educadores a percepção de como o celular e seus recursos podem ser inseridos de forma articulada às demais ações de um projeto pedagógico, no qual quem ganha é o próprio projeto e as pessoas envolvidas. Assim, espera-se que outras situações de ensino, fora das propostas do Minha Terra, aconteçam como um desdobramento desta comunidade, o que, aliás, constata-se já estar acontecendo, a exemplo do uso do 
Twitter.


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29 de fevereiro de 2012

Pelo celular... lá na escola!
Mobilidade e convergências nos projetos pedagógicos

Sônia Bertocchi  & Claudemir Edson Viana


Os "mais vividos", com certeza, devem se lembrar do samba "Pelo Telefone", autoria de Donga, de 1916. E do verso que diz que "o chefe da polícia, pelo telefone, mandou avisar...". Unanimemente, entendemos que avisou via fala, serviço de comunicação verbal próprio desta tecnologia. Parece muito óbvio para nós – mas lembremos o espanto geral que a invenção do telefone causou poucos anos antes: D. Pedro II, ao ver o invento pela primeira vez, durante a feira de Filadélfia nos Estados Unidos em 1876, disse :  "Meu Deus, isto fala!", e logo comprou 100 aparelhos telefônicos para trazer ao Brasil.

Mas, 133 anos depois, falar por meio do celular é apenas uma das ações que esta tecnologia nos permite fazer. Aliás, é a mais simples e corriqueira atividade: falar pelo celular é o que faz aproximadamente 86% da população brasileira possuidora de celular. Com um custo cada vez menor e tecnologias mais avançadas, encontramos celulares que permitem muito mais que simplesmente falar. Em agosto de 2009, segundo a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), atingiu-se o impressionante número de 164,5 milhões de celulares no país, o que representa um índice de densidade de 85,91 celulares para cada 100 habitantes.



Nova sociabilidade: a portabilidade
O histórico da evolução material da telefonia, aponta uma nova sociabilidade que emergiu sob o suporte do aspecto portátil do celular. A partir da história do telefone, podemos vislumbrar, sob a perspectiva da materialidade da comunicação, as afetações que um artefato técnico pode trazer à tona em uma determinada cultura, como a da presença significativa do celular na contemporaneidade.

Hoje, pelo celular se pode também escrever, fotografar, filmar, editar, jogar, navegar na Internet, enviar e-mail, torpedos, ouvir música ou rádio. São tantas as possibilidades impensáveis há alguns anos, que podemos imaginar o que diria D. Pedro II se pudesse conferir esta evolução. Este avanço tecnológico da telefonia é mais um exemplo claro do que pensadores da Escola de Toronto (Harold Innis, Eric Havelock, Marshall McLuhan) destacavam sobre o fato das tecnologias comunicacionais possuírem o poder de transformar as culturas e as subjetividades, e de estas, por sua vez, provocarem novos ciclos de mudanças tecnológicas, numa dialética sem fim.

Conforme a 4ª Pesquisa sobre o uso das Tecnologias da Informação no Brasil (TIC Domicílios 2008), realizada pela Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), cada vez mais no Brasil utiliza-se o celular para enviar ou receber imagens, acessar músicas ou vídeos. Esta pesquisa anual pela primeira vez incluiu a análise da área rural e mostrou que, mesmo com a maioria da população utilizando os planos pré-pagos (91%), de 2005 a 2008 subiu de 4% para 24% a utilização do celular com o envio ou recebimento de imagens, e de 9% para 23% com o uso de músicas e vídeos, tendo ocorrido um crescimento mais significativo nos dois últimos anos em razão das conexões 3G e da presença no mercado de celulares mais potentes. Isto demonstra como o uso mais multimídia do celular vem ocorrendo entre os brasileiros graças à sua evolução técnica.

Em outra pesquisa também se constata a forte presença dos celulares entre estudantes brasileiros: dados da publicação A Geração Interativa na Ibero–América: crianças e adolescentes diante das telas - um estudo feito em parceria entre a Universidade de Navarra, na Espanha, a Fundação Telefônica e o EducaRede - apontam para o sucesso do aparelho celular entre os jovens de 6 a 18 anos de idade. Em São Paulo, nada menos que 82% dos estudantes que participaram da pesquisa afirmaram possuir um telefone móvel.

Em alguns contextos sociais, usam-se os aparelhos móveis para outras finalidades que, de normalmente secundárias passam a principais, como câmera, tocador digital ou videogame portátil. Exemplos internacionais deste tipo de uso alternativo são o que demonstram os dados de uma pesquisa feita pelaLightspeed.

No Brasil, um exemplo dessa situação é o que ocorre na cidade potiguar de Barcelona. E são os jovens e as crianças que dão show quando o negócio é usar todos os recursos do celular ou quando mostram não terem medo de explorar o celular para aprender como utilizá-lo. E aí está a diferença. Muitos dos adultos, e em especial os educadores, não conhecem ou não usam estes recursos todos e muito menos visualizam como eles e a cultura deles decorrente podem ser associados às práticas escolares.


Atenção: desligar e guardar os celulares. 
Celular na escola? Pode?
Tem causado grande polêmica a criação de leis municipais e estaduais que propõem proibições para o uso do celular nas escolas. Nas redes de ensino onde isto já é praticado, justifica-se que só mesmo com a proibição legal garante-se a autoridade do professor que, desta forma, amparado pela lei, pode se fazer respeitar durante suas aulas, proibindo o uso do celular. "Celular na escola, não!", ou como dizem os não tão radicais, "celular durante a aula, não!".

Mas por que mesmo não pode? O vilão da vez

Para responder a esta pergunta, sataniza-se o equipamento, o celular, e destaca-se o quanto os alunos, crianças e jovens, envolvem-se por tudo o que esta tecnologia de informação e comunicação possibilita, deixando assim de se interessarem pelas aulas dos seus professores. Então, neste caso, a opção melhor é mesmo proibir, censurar, pois se trata de uma concorrência desleal, argumenta a maioria. E por isso, os professores aplaudem tal legislação. 

No entanto, com este tipo de censura, perde a educação e perde a sociedade. Sérgio Amadeu, pesquisador de Comunicação Mediada por Computador e da Teoria da Propriedade dos Bens Imateriais, diz que "não tem sentido você proibir que os estudantes tenham acesso a um meio de comunicação que cada vez mais vai adquirir importância na sociedade. Ao contrário, se a gente tem problemas do uso indevido nas escolas, esse é um bom lugar para ensinar como as pessoas devem se portar com o celular". Amadeu ainda ressalta: "Se existem algumas coisas ruins, como por exemplo, a pessoa usar o celular para fazer um joguinho em sala de aula ou para fazer ligações, isso requer uma postura da escola em relação aos alunos. Se é impossível ensinar um comportamento de uso de celular a um estudante, o que será possível?". A professora Andrea Guimarães Phebo complementa: "A lei só vê um lado da questão: o lado da falta de educação e desrespeito da utilização. Se os próprios educadores não tiverem um olhar diferenciado sobre como podem transformar a ferramenta celular de "vilão" em "mocinho", a lei continuará impedindo que este instrumento tecnológico de múltiplas funções possa se transformar em ferramenta didática". (In.  Educarede: As 1001 utilidades de um celular)

Essas legislações passam a seguinte mensagem: quando não se sabe o que fazer ou como lidar com algo é melhor proibi-lo pura e simplesmente! E erram feio mais uma vez: na escola já se proibiu o uso de jogos, de filmes, de gibis, dos periódicos, da televisão e mesmo do computador no processo de ensino-aprendizagem. Agora, o vilão da vez é o celular!



Definitivamente, proibir por proibir não é o melhor caminho, até porque os jovens são criativos o suficiente para burlar as proibições. Um exemplo dessa criatividade é o que estudantes ingleses inventaram:  "Eles criaram um toque de celular, semelhante a um apito, que a maioria dos adultos não consegue ouvir. Com isso, podem receber avisos de mensagens armazenadas no celular, ou até mesmo chamadas, sem que a professora se dê conta da infração cometida bem à sua frente. O segredo está na freqüência sonora em que o toque é executado: 17 quilohertz, o que resulta num som extremamente agudo. A ciência ensina que a perda gradativa da audição decorrente da idade, ou presbiacusia, começa com a menor percepção dos tons mais altos do espectro sonoro. O toque criado pelos garotos ingleses encontra-se justamente numa faixa do espectro que não é percebida pela maioria das pessoas com mais de 29 anos". (In:  A última travessura: Adolescentes usam toque de celular numa frequência que muitos adultos não escutam. Leoleli Camargo- Veja - Edição 1961 . 21 de junho de 2006. 


Veja Também: 
 • Por que celular na educação? 
 • O celular integrado às atividades do Minha Terra

Publicado originalmente em
http://www.educared.org/educa/index.cfm?pg=revista_educarede.especiais&id_especial=493 
08/12/2009

18 de maio de 2011

Pelo celular:
proposta de atividade com alunos