17 de fevereiro de 2011

A não tão nova lição de casa da escola:
entender, criticar e incorporar novas tecnologias

A eletricidade (1873) passou a ser utilizada por 50 milhões de usuários no mundo apenas depois de 46 anos de existência. O automóvel foi criado em 1886 e somente 35 anos depois chegou a essa marca. O telefone (1876), idem: foram mais de três décadas para se disseminar. O rádio (1906), 22. A televisão (1926), 26. O forno de microondas (1953), 30. O microcomputador (1975), 16 e o celular (1983), 13 anos.
A Internet alcançou essa marca em apenas quatro anos, entre 1995 e 1999, em seu período mais comercial. Em março de 2002, já éramos 561 milhões de pessoas plugadas à rede mundial de computadores. De acordo com cálculos do Instituto do Futuro, Califórnia (EUA), uma inovação tecnológica leva, em média, 30 anos para ser realmente absorvida pela sociedade.
O que essas datas e números nos dizem objetivamente? Primeiramente, o que diferencia tão profundamente a Internet das outras descobertas e invenções humanas é o período de tempo de que ela precisou para entrar na vida de milhões de pessoas. Insignificante. Em segundo lugar, que ainda estamos vivendo um estágio de absorção dessa tecnologia. O que nos leva a crer que, independentemente dessa rápida disseminação, a Internet está hoje, sob uma perspectiva histórica, em uma fase de desenvolvimento embrionário.
Se voltarmos mais na linha do tempo, veremos que a primeira aplicação da eletricidade à comunicação ocorreu no início do século 19 com o telégrafo de Morse. Aí começou a chamada "linguagem digital" e com ela surgiu um volume enorme de termos que não pára de crescer e que precisamos conhecer para participarmos das novas formas de comunicação.
Não faz muito sentido, então, pensar em número de usuários da Internet para avaliar a sua importância e seu impacto em nossas vidas, pessoal e profissional. Para nós professores, o que interessa - ou preocupa - é a rapidez com que ela se instala e passa a fazer parte de nossas vidas e de nossa comunidade - quer queiramos ou não, independentemente de julgamentos de valor. E como estamos lidando com isso.Já em setembro de 99, o Newsweek publicava: "Não existe mais volta. Antes uma novidade, a Internet está transformando o modo como vivemos, pensamos, falamos, amamos, estudamos, fazemos dinheiro, visitamos o médico e elegemos o presidente. Não estamos mais falando sobre o futuro - isto está acontecendo aqui e agora".E é sob a pressão desse "aqui e agora" que surgem as tensões quando nós, educadores, nos propomos a incorporar essa nova tecnologia à nossa prática pedagógica. Temos a sensação de que sempre estamos atrasados, desatualizados, perdendo alguma coisa. Sentimos que nossas convicções estão fragilizadas, que as hierarquias há muito internalizadas estão sendo subvertidas e que novos e complexos padrões se impõem com força e velocidade assustadoras.
Aí estão: a velocidade, o tempo. Tempo que nem sempre temos, mas de que precisamos. Tempo para uma ampla e profunda reflexão sobre nossa formação profissional - onde, quando e como ocorreu e, principalmente, em que bases filosóficas ela se fundamenta. Tempo para passar por diferentes etapas de aprendizado e adquirir habilidades para "mexer com computador". Tempo para tentar "ajustar" nossas convicções prévias às condições concretas e objetivas com que nos deparamos na execução de um projeto que utiliza a Internet, por exemplo. Tempo para reunir condições de associar os recursos que a máquina oferece aos objetivos de nossa atividade docente. Tempo para discutir, reavaliar e aprimorar as relações pessoais em nosso ambiente de trabalho.
Não existe receita... modelo, mas alguma certeza a experiência nos garante: quando se tem sensibilidade e criatividade para se proporcionar esse tempo, temos grande chance de alcançar o objetivo maior: professores integrando não só positiva, mas criticamente novos recursos tecnológicos à sua prática.
Para isso, há que se dedicar tempo, investir em formação e respeitar a trajetória de cada um que, nesse caso, é muito, muito particular mesmo. Diz um ditado popular que o tempo muda as coisas, mas diz também que, na realidade, quem tem de mudá-las é cada um de nós, com o tempo.  

Fotos: Commons - Flickr - Blind stenographer using dictaphone - Amateur wireless station